Meu olho é um girassol: fotografia-presença

Auto-retrato

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos

Nos dias 25 de outubro, em São Paulo, e 23 de novembro, no Rio de Janeiro, estarei ministrando a oficina Meu Olho é um Girassol: fotografia-presença. Com base na fotografia contemplativa, essa oficina visa utilizar a fotografia como recurso  para propiciar um estado meditativo e de presença plena, que nos devolve a capacidade de nos maravilharmos com o mundo, de nos aproximarmos de nossa humanidade e nos conectarmos com o todo que nos cerca.

Não é necessário ter experiência em fotografia ou equipamentos sofisticados: a ênfase é no processo, e não na técnica. Traga seu celular com câmera ou aquela câmera fotográfica simplesinha mesmo – e olhos abertos para ver.

 A Fotografia Contemplativa é uma prática meditativa que teve origem no budismo Shambhala preconizado por Chogÿam Trungpa. É chamada também de Miksang, uma palavra tibetana que significa “olho bom”. Como prática de meditação, descreve um processo de abertura da percepção que tem por objetivo trazer a presença atenta e de qualidade de quem a pratica. De acordo com texto publicado no site do Miksang Institute for Contemplative Photography®,

Quando sincronizamos olho e mente, abandonamos todos os conceitos e predisposições e nos tornamos completamente presentes no momento. O mundo se torna um mostruário mágico de vívida percepção

 Ao contrário da fotografia tradicional, onde a técnica e os recursos oferecidos pelo equipamento fotográfico têm papel preponderante, na Fotografia Contemplativa o que interessa é o olhar atento e claro de quem fotografa. Pode-se, portanto, fazer uso de uma câmera fotográfica muito simples, ou mesmo de um aparelho celular, pois o que importa não é a qualidade técnica da fotografia, mas sim a qualidade da presença do fotógrafo. Karr e Wood (2011, p.2-3) apontam que

Tendo crescido em uma determinada cultura, nós naturalmente formamos conceitos sobre quais assuntos são atraentes, quais são artísticos, quais valem a pena [serem fotografados]. Esses conceitos são como filtros ou gabaritos que se sobrepõe à nossa experiência […] Por desviarem o fotógrafo do mundo da forma visual, esses conceitos tornam-se obstáculos para uma visão clara. Distraída pelos conceitos, a visão se torna vaga e distorcida. Com a percepção obnubilada pelas imagens mentais é difícil ao fotógrafo convencional ver o todo que está fotografando, e fácil para ele não prestar atenção naquilo que não se encaixa no gabarito. 

 O objetivo da Fotografia Contemplativa, ao contrário, é de desenvolver a habilidade de se fotografar aquilo que se vê. Para os mesmos autores, isso só é possível quando estamos presentes no momento e nossa visão se torna clara, não obscurecida por expectativas ou pressupostos. Podemos perceber aqui ligações bastante claras com a Gestalt-terapia, em especial no que se refere à postura fenomenológica, principalmente a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, que coloca o homem como alguém que não só habita o mundo, mas, mais do que isso, está profunda e intrincadamente implicado nele. Também permite inter-relações com questões como a alternância figura-fundo e a emergência de significados, já que o estado ideal para se praticar a Fotografia Contemplativa é, como o próprio termo descreve, um estado contemplativo do qual emergirão subitamente os assuntos a serem fotografados e para os quais a atenção se volta antes do disparo da câmera. Deste estado emerge também a awareness. A Gestalt-terapia enfatiza a importância da conscientização de si e do momento presente, conscientização essa que não é apenas mental, mas organísmica, total (PERLS, 2011), “com qualidade acentuada de atenção e sentido” (KIYAN, 2009, p.52). Essa forma plena de experiência é chamada de awareness. Termo sem tradução literal para o português, relaciona-se à consciência presentificada, é presença plena e ativa (PERLS, 1997). Para Yontef (1998, p.215):

Awareness é uma forma de experienciar. É o processo de estar em contato vigilante com o evento mais importante do campo indivíduo/ambiente, com total suporte sensoriomotor, emocional, cognitivo e energético. Um continuum sem interrupção de awareness leva a um Ah!, a uma percepção imediata da unidade óbvia de elementos díspares no campo. A awareness é sempre acompanhada de formação de gestalt. Totalidades significativas novas são criadas por contato de aware. A awareness é, em si, a integração de um problema.

Podemos então considerar a Fotografia Contemplativa como um exercício poderoso de consciência ativa e presentificada que nos possibilita estarmos no mundo de forma mais inteira, em pleno contato com aquilo que se apresenta a cada momento, recuperando em nós o “pasmo essencial” de que fala Caeiro no poema que abre este texto. E é ele que nos permite lançarmos um olhar sempre fresco e inocente sobre o mundo e maravilharmo-nos com ele a cada instante.

REFERÊNCIAS

KARR, Andy; WOOD, Michael. The practice of contemplative photography: seeing the world with fresh eyes. Boston: Shambala, 2011.

KIYAN, Ana Maria M. O gosto do experimento: possibilidades clínicas em Gestalt-terapia. São Paulo: Altana, 2009.

PERLS, Frederick S; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997

YONTEF, Gary M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.

Retiro AHIMSA: Yoga e Não-Violência na vida cotidiana

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No último final de semana participei do retiro Ahimsa: yoga e não-violência na vida cotidiana, realizado no lindo espaço Terra Luminous e facilitado com muita sensibilidade e amor por Kiu Coates e Fabiana Bandeira Maia. A cada vez que mergulho ainda mais profundamente no universo da não-violência eu me sinto mais próxima da minha autenticidade, e tenho tido experiências muito belas e impactantes de formação de redes e de comunidade através da minha pesquisa e prática em Comunicação Não-Violenta. Neste retiro eu tive a oportunidade não só de vivenciar novas experiências neste sentido, mas também de experimentar momentos intensos de presença e desafios pessoais, através da prática de Yoga. As relações entre o trabalho corporal e a não-violência foram sendo tecidas com naturalidade, a partir da percepção das possibilidades e limites do corpo e dos momentos em que a permanência no desconforto algumas vezes causado por algumas posturas (e por minha falta de prática de yoga) foi suavemente transmutada em contato com um vazio fértil, cheio de possibilidades. Pude também revisitar momentos de minha vida nos quais a minha tendência a ter muito mais consideração pelas outras pessoas do que coragem para manifestar a minha verdade fez com que eu passasse por situações em que eu, voluntariamente, submeti minha vontade à vontade alheia e menti para mim mesma e para os outros sobre meus reais sentimentos e necessidades, achando que, desta forma, eu estaria cuidando bem das relações, sem perceber o quão violenta eu estava sendo ao agir assim. Graças ao meu percurso intenso na Não-Violência, tenho testemunhado que as pessoas anseiam por sinceridade e que a vulnerabilidade constrói pontes e fortalece parcerias. 

Durante estes três dias conheci pessoas maravilhosas e muito interessantes e pude fortalecer conexões com algumas pessoas que já conhecia, mas com quem ainda não tinha tido a oportunidade de compartilhar mais intensamente.  O local é muito bonito e aconchegante, carinhosamente pensado para oferecer conforto e experiências estéticas a cada momento e olhar. No início do retiro Fabiana nos perguntou o que gostaríamos de levar de volta para casa quando fossemos embora no domingo, e eu respondi que eu queria mais integridade, companhia e conexões profundas que me ajudem a continuar caminhando neste percurso, tão caro para mim. E posso dizer que trouxe tudo isto e muito mais comigo, graças às belas relações que se estabeleceram entre os participantes durante o final de semana e à hábil e cuidadosa facilitação de Fabiana e Kiu. Estou muito grata por ter tido a oportunidade de participar deste poderoso experimento de auto-descobertas e de alteridade radical.

Viagem à Escócia – Findhorn Foundation

Nature Sanctuary em The Park, Findhorn Foundation

Nature Sanctuary em The Park, Findhorn Foundation

Faz duas semanas que estou de volta de uma estada de três semanas na Findhorn Foundation, na Escócia. Tudo o que experienciei lá continua muito vivo e ressoando muito forte dentro de mim. Foi uma experiência radicalmente transformadora, repleta de aprendizados e de descobertas, e é um pouco disso tudo que quero compartilhar aqui.

Conhecer a comunidade de Findhorn era um sonho antigo. A mais de dez anos, desde que comecei a praticar Danças Circulares, eu tinha vontade de visitar o lugar onde teve início este movimento tão significativo na minha vida. Mas era um desejo que me parecia também algo, senão impossível, muito distante da minha realidade. Enfim, para tudo há um tempo certo, e a hora chegou. A decisão de, finalmente, realizá-lo veio numa conversa despretensiosa com meu pai, José Rente, que também adora viajar.  Não posso deixar aqui de agradecer imensamente o apoio inestimável que recebi dele,  sem o qual essa viagem não teria sido possível. Comentei com ele que adoraria conhecer a Findhorn Foundation e ele me respondeu: “E porque você não vai?” Eu disse que um dia iria, e ele, prontamente, me falou: “Um dia, não. Para que esperar? Vá agora!”. E então o sonho começou a tomar forma…

O que, a princípio, seria uma estada de uma semana para o Festival of Sacred Dance, Music and Song, logo se tornou um plano mais ambicioso. Já que eu estava indo, por que não aproveitar e participar da Semana de Experiência em português, que aconteceria na semana anterior? No site da Fundação descobri que, na semana anterior à de Experiência, Dominic Barter, junto de quem venho desde o ano passado investigando possibilidades de comunicação e vida em comunidade fundadas na Não-Violência, estaria lá juntamente com Kit Miller para uma vivência intensiva em Não-Violência. Timing mais-que-perfeito, e eu decidi que minha visita duraria então três semanas.

A Findhorn Foundation é uma comunidade e ecovila fundada em 1962 por Eillen e Peter Caddy e Dorothy Maclean. Localiza-se no nordeste da Escócia, no litoral do Mar do Norte, nas proximidades da vila de Findhorn. Com base em uma proposta espiritual ecumênica, na vida comunitária e na não-violência, tem sido uma inspiração para várias comunidades ao redor do mundo. A Fundação abriga vários eventos e cursos nas áreas de desenvolvimento pessoal e espiritual, sustentabilidade, ecologia, artes, música e danças sagradas, além de programas residenciais que promovem experiências de imersão na vida e trabalho em comunidade.

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Semana 1 – Nonviolence Intensive

Pois bem, foi realmente uma semana intensa! Gente de vários lugares do mundo, com interesses, vivências e atuações profissionais e pessoais diversas, reunidas para conviver de uma forma que a maioria de nós não está acostumada, baseada na autenticidade, em partilhas profundas de sentimentos e necessidades e na força criativa que permite encontrar soluções consensuais para os conflitos que inevitavelmente surgem quando várias pessoas decidem viver juntas.

Este programa, que acontece anualmente na Fundação, é focalizado por Kit Miller, diretora do M.K. Gandhi Institute for Nonviolence, localizado em Rochester-NY, e Dominic Barter, pesquisador em Comunicação Não-Violenta e práticas restaurativas e precursor dos Círculos Restaurativos no Brasil. Ambos investigam a vários anos possibilidades de convivência e de comunicação baseadas na não-violência e na cocriação de uma realidade que viabilize uma existência mais humana, justa e que sustente e sirva à vida em todas as suas formas.

Tudo fica ainda mais instigante quando tomamos conhecimento da proposta de corresponsabilização financeira que sustenta o programa. A Fundação e os focalizadores oferecem-no como um presente, ou seja, nenhum valor é cobrado pela participação. Mas, por outro lado, ela também não é gratuita. Afinal, há os custos para nos hospedar e alimentar durante toda uma semana, para que os focalizadores se desloquem até lá e para apoiarmos seus trabalhos, e estes valores devem ser cobertos de forma que o evento se torne sustentável e possa continuar se realizando. Como isso acontece, então? Em algum momento durante a semana os custos são informados e cada um de nós decide de que forma quer e pode contribuir, de modo que todos nos tornamos responsáveis por viabilizar o programa. Este modo criativo de lidar com as questões financeiras é transformador e muito empoderador, além de permitir a participação de uma imensa diversidade de pessoas, já que não há uma seleção prévia que separa aqueles que poderiam pagar um determinado valor de outros que teriam muito a contribuir caso fizessem parte do grupo, mas que não poderiam arcar com os custos.

Participamos de várias atividades juntamente com os residentes na comunidade, como os Cantos de Taizé, que acontecem todas as manhãs, e as meditações da tarde, o que nos permitiu vivenciarmos a proposta espiritual na qual a Findhorn Foundation se sustenta. Também trabalhamos durante uma tarde nas plantações do Cullerne Garden, onde são produzidos os vegetais que abastecem as cozinhas da Fundação, com base nos princípios da permacultura. A relação entre essa técnica, que se fundamenta no reconhecimento e no respeito à sabedoria e à capacidade de autorregulação da Natureza, e o trabalho com comunidades motivou Kit a dizer uma frase que ficou como dica preciosa para mim: observar atentamente, fazer a menor intervenção possível e aguardar para ver o que acontece. Foi muito rico testemunhar a forma pela qual ela e Dominic puseram este princípio em prática desde os primeiros momentos em que nos reunimos, aguardando que o grupo se configurasse lentamente, praticamente sem interferência, até que ele emergisse como uma construção coletiva muito poderosa feita a partir da soma dos potenciais individuais, o que me proporcionou reflexões extremamente ricas sobre como comunidades ganham vida e se sustentam nas intenções de cada um de seus componentes e de todos eles reunidos.

Durante a semana tratamos de vários temas que surgiram através das demandas do próprio grupo, como gênero e desigualdade, a importância do apoio e como nos organizamos para encontrá-lo, alternativas ao modo como nos relacionamos com dinheiro e consumo, elaboração e gestão de projetos comunitários, entre outros. Tivemos também a oportunidade de vivenciar um Círculo Restaurativo que foi chamado para cuidar de um conflito que emergiu entre os participantes, o que me proporcionou novos conhecimentos e a possibilidade de testemunhar e participar da aplicação real daquilo que venho estudando sobre os Círculos.

Outra vivência poderosa e profunda foi a da Truth Mandala (Mandala da Verdade) que Kit e Satya conduziram, inspiradas no trabalho de Joanna Macy. Essa experiência me fez ver com muita clareza a importância de enlutarmos em comunidade. O enlutamento em companhia de pessoas significativas em nossa vida ficou relegado a situações extremas, como a morte de alguém. Ainda assim, na maioria das vezes, esvaziado de significado e burocratizado demais, o que o impede de cumprir a sua função principal, que é de lamentar a perda, mas também celebrar a vida. Mas há também motivos cotidianos para nos entristecermos e lamentarmos. Além das muitas dores do dia-a-dia, as nossas e as alheias, cada escolha que fazemos implica em uma renúncia, e isso pode ser motivo de luto compartilhado. Cada celebração traz em si um enlutamento também, seja por tudo aquilo de que tivemos que abrir mão para poder conquistar algo ou viver de acordo com o que acreditamos, seja porque nem sempre conseguimos celebrar quando, como ou com quem gostaríamos. Mas, se pensarmos bem, todo luto também carrega uma celebração, por mais dissonante que isso possa parecer. Porque toda perda abriga uma possibilidade de transformação, de crescimento, de fortalecimento, de mudança. E poder passar por esses processos em companhia de uma comunidade é muito forte. Ganhar consciência disso me trouxe possibilidades de ser que me enriquecem cada vez mais. 

Kit e Dominic são fontes de inspiração para mim, e sempre fico admirada e muito grata por todo amor que eles manifestam em suas palavras e ações. Além de dar prosseguimento à minha investigação sobre a Comunicação Não-Violenta e os Círculos Restaurativos e de adquirir conhecimentos que passaram a orientar minha atuação no mundo, durante esta semana eu fui capaz de entrar em contato com questões pessoais muito dolorosas e de trabalhar na sua cura. Também adquiri um senso crescente de comunidade como sendo algo que conecta todos os seres, além da consciência de que tenho que cuidar bem de mim, buscando apoio sempre, para que eu possa ser capaz de servir às minhas comunidades. Ainda me sinto profundamente comovida por todas as experiências transformadoras que vivi durante o Nonviolence Intensive. Uma das minhas frases da literatura preferidas é do escritor João Guimarães Rosa no seu livro Grande Sertão: Veredas, e diz: “Viver é negócio muito perigoso”. Dominic costuma dizer que o que define uma comunidade é o risco compartilhado. Se é assim, arrisco afirmar que, em última instância, todos somos potencialmente comunidade. E pensar desta forma fez com que o meu olhar sobre comunidades se ampliasse radicalmente, e eu passei a enxergar muito claramente a minha interdependência em relação a todas as formas de vida do planeta e a nos reconhecer e celebrar como participantes da mesma bela aventura.

Compartilhando um lindo depoimento

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Foto de Eliza Carneiro

Tive o privilégio e a honra de ser convidada para participar das comemorações do aniversário de Fátima Lee, e para focalizar uma roda de danças circulares. Compartilho aqui o lindo depoimento que ela publicou no blog do seu Espaço Matrix. Gratidão pelas conexões criadas pela vida!  Visite o blog do Espaço Matrix  para ler a postagem original.

A Bênção do COMPARTILHAR

Quando compartilhamos com o mundo, distribuindo a essência do que trazemos de melhor dentro de nós, uma chuva de flores retorna abençoando o nosso viver. E, quanto mais compartilhamos, mais preenchidos de alegria e felicidade nos tornamos.
Há alguns dias, na celebração de meus 50 anos com parceiros queridos que compartilham seus lindos trabalhos no Matrix, fui abençoada com uma dessas chuvas de flores!
Numa linda roda que formamos, sob a condução delicada e amorosa de Angelica Rente, nossa mais recente parceira nas Danças Circulares, recebi de cada parceiro presente, a essência do que cada um trazia de melhor, representada pelas cartas do “Oráculo da Iluminação”*, num breve ritual que antecedeu a tocante dança sob o mantra tibetano “Flower of Compassion”**, focalizada lindamente por Angelica.
Esse ‘bouquet’ de flores  que agora compartilho com vocês, continha no simbolismo das cartas do Oráculo, a pura Essência: da Ordem, da Vitalidade, da Entrega, do Abridor de Caminhos, do Poder da Palavra, da Harmonia, do Amor Divino, da Fraternidade, da Cura, do Amor Humano, da Visão, da Música, da Pureza, da Liberdade, dos Sonhos, da Sustentação e da Coragem – oferecida por cada parceiro presente na roda e, acolhida profundamente por meu coração, que o traduziu na seguinte mensagem, pleno de Gratidão.
“Que uma nova ORDEM regida pela PUREZA da ENTREGA nos ABRA CAMINHOS para manifestarmos a HARMONIA através da expressão do AMOR DIVINO que se revela em AMOR HUMANO. Onde a CURA se manifesta na plataforma física, ao reconhecermos a Essência da Perfeição que promove a nossa SUSTENTAÇÃO nessa dimensionalidade.
Abrem-se as portas para uma nova VITALIDADE, onde os SONHOS mais sublimes manifestam-se em LIBERDADE de concretização, através da VISÃO além da forma.
A CORAGEM nos impulsiona a vivermos a verdadeira FRATERNIDADE na Terra, onde a nossa MÚSICA fundamental seja revelada pelo PODER DA PALAVRA qualificada que a  tudo transforma em Vida, Luz e Amor.”
O efeito dessa linda cerimônia ainda reverbera dentro de mim, no simbolismo inspirador de cada passagem compartilhada:
No laço das mãos, o equilíbrio entre o dar e receber – o compartilhar do Coração;
No olhar consciente nos olhos dos amigos da roda, o reconhecimento da alma, a percepção da energia do círculo – a Unidade;
Nas mãos em prece – Reverência à Vida, a toda vida.
Amigos de todos os tempos, dedico minha profunda Gratidão por suas Presenças em meu viver compartilhando suas Luzes, Cores e Flores que agora retornam em lindas bênçãos a cada um de vocês!
Namastê.
**Mantra tibetano gravado por Margot Reisinger e seu projeto Existence, no cd Free Tibet, com coreografia de Samuel Souza de Paula.

Projeto Criativa Idade

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O Projeto Criativa Idade consiste de oficinas de criatividade e de expressão durante as quais serão utilizados os mais diversos recursos expressivos: pintura em diversos suportes, escultura e modelagem, fotografia, literatura, danças circulares, música, etc.

OBJETIVOS

  • Proporcionar uma atividade prazerosa;
  • Estimular a memória e a concentração;
  • Estimular a expressividade e a criatividade;
  • Descobrir e explorar potenciais pessoais;
  • Aumentar a auto-estima;
  • Desenvolver habilidades artísticas, tendo em vista a auto-expressão através do uso das técnicas de arte;
  • Estimular as relações interpessoais e a sociabilidade.

PÚBLICO-ALVO: Adultos a partir de 60 anos. Não é necessária experiência prévia em artes.

O trabalho será realizado em encontros semanais com 2 horas de duração cada, em grupos com, no máximo, 6 participantes.  Período da manhã ou tarde.

INVESTIMENTO: R$ 240,00 por mês, com todo o material incluido.

Para mais informações e inscrições, clique aqui.

Mandalas

 

Mandala Árvore

Por Cathy Malchiodi, publicado originalmente em http://www.psychologytoday.com/blog/the-healing-arts/201003/cool-art-therapy-intervention-6-mandala-drawing
Tradução: Maria Angelica Rente

Nós, humanos, sempre tivemos fascinação pelo círculo. Temos contato com ele através da natureza – na espiral da Via Láctea, nas órbitas dos planetas, e nos ciclos da vida em si. Quando crianças, descobrimos que poderíamos usar lápis de cor pra fazer formas circulares no papel; é um estágio universal do desenvolvimento artístico que toda criança normal no mundo vivencia. De fato, é o primeiro grande marco na produção de imagens e, por isso, o desenho infantil de um círculo pode ser uma das mais primitivas representações do self.
Costumamos nos referir às formas circulares como mandalas, palavra em sânscrito que significa “círculo sagrado”. Por milhares de anos a criação de desenhos circulares, frequentemente geométricos, tem feito parte de práticas espirituais ao redor do mundo e quase todas as culturas reverenciaram o poder do círculo. As culturas orientais utilizam mandalas específicas para meditação há muitos séculos; a mandala budista tibetana Kalachakra, também conhecida como Roda do Tempo, é provavelmente uma das mais famosas, e ilustra simbolicamente a estrutura inteira do universo. Formas circulares também são encontradas no monumento pré-histórico de Stonehenge , na Inglaterra, e no labirinto de século 13 que se encontra no chão da Catedral de Chartres, na França. Pessoas no caminho da espiritualidade sempre criaram mandalas para entrar em contato com o sagrado através de imagens, e evocaram o círculo em rituais e na produção de arte com o propósito de transcendência, completude e bem estar.
Carl Gustav Jung introduziu o conceito das mandalas na cultura ocidental, e acreditava que esse símbolo representa a personalidade total, ou seja, o Self. Jung observou a criação espontânea de mandalas em seus pacientes e em sua própria experiência pessoal, e notou que a aparição súbita destas figuras em sonhos ou em forma de arte normalmente era um sinal de movimento em direção a um maior auto-conhecimento. De 1916 até 1920 Jung criou desenhos e pinturas de mandalas que sentia corresponderem à sua situação interior no momento da criação delas. Ele acreditava que as mandalas denotavam uma unificação dos opostos, serviam como expressão do self e representavam a somatória de quem nós somos.
A arteterapeuta Joan Kellogg passou grande parte de sua vida desenvolvendo um sistema de compreensão da sabedoria da mandala, que ela denominava de “Grande Círculo”. Em sua teoria sobre padrões, forma e cores em mandalas, Kellogg integrou parte das descobertas de Jung e sua própria pesquisa, que durou várias décadas. Em particular, ela afirmava que nossa atração por certas formas e configurações encontradas em mandalas dá indícios de nossas condições físicas, emocionais e espirituais em determinado momento. Kellogg também desenvolveu uma série de cartões, cada um com um desenho de mandala diferente, representando traços de caráter, relacionamento interpessoal, aspirações e o inconsciente, sempre mutáveis dentro do círculo da vida representado pela Grande Roda da Mandala.
Os conceitos de Kellogg deram origem a um sistema inteiro para análise de mandalas, com a finalidade de avaliar tudo, desde a personalidade de um indivíduo até sua saúde física.  Como psicóloga pesquisadora, não posso afirmar que existe pesquisa o suficiente para fundamentar a interpretação através do uso desta fórmula. A idéia de interpretar símbolos encontrados em mandalas intriga muitos arteterapeutas e analistas junguianos, que enxergam significados nas imagens. Mas, para mim, o poder evocativo e promotor de saúde da mandala significa muito mais do que apenas procurar símbolos. É, na verdade, o processo criativo de confecção de mandalas que nos auxilia a revisitar a experiência universal do círculo e, como Jung descobriu, nos auxilia a vivenciar e refletir sobre a essência do que somos no aqui e agora.
De acordo com Jung, as mandalas simbolizam “um refúgio seguro de reconciliação e inteireza interiores”. Elas têm o potencial de trazer à tona algo universal dentro de nós, talvez o proverbial arquétipo do Self. E, ao mesmo tempo, nos oferecem uma experiência do todo em meio ao caos da vida diária, tornando o “círculo sagrado” uma das intervenções arteterapêuticas mais válidas tanto para o conforto da alma quanto para o encontro com si mesmo.

Uma breve história das danças circulares sagradas

Uma breve história das danças circulares sagradas

Louvada seja a dança, que tudo exige e fortalece: saúde, mente serena e uma alma encantada.
Aurelius Augustinus (Santo Agostinho)

Dançar é uma das manifestações humanas mais antigas. Em sítios arqueológicos é possível ver pinturas rupestres representando rodas de dança, que, provavelmente, tinham caráter ritual e de congregação. Mais tarde, as ocasiões especiais, como casamentos, nascimentos e mortes, eram honradas e comemoradas com danças, que também eram utilizadas pelos povos para comunicar-se com seus deuses e agradecer as boas colheitas, pedir por chuva ou pelo fim de uma epidemia, por exemplo.

São essas danças ancestrais a origem das Danças Circulares Sagradas. Nos anos 1960, o bailarino e coreógrafo alemão Bernhard Wosien, após uma longa e bem sucedida carreira no ballet, passou a dedicar-se à pesquisa e ensino das danças tradicionais dos povos. Em 1976, Wosien, já com mais de 60 anos, foi convidado a ensinar essas danças aos residentes da Comunidade de Findhorn, na Escócia. Sua visita inaugurou o movimento da Danças Circulares Sagradas, tal como o conhecemos hoje.
Bernhard Wosien

No Brasil, o pioneiro das Danças Circulares Sagradas foi o mineiro Carlos Solano Carvalho, que havia residido em Findhorn durante seis meses. O Centro de Vivências Nazaré, em São Paulo, comunidade criada nos moldes de Comunidade Findhorn, deu início às rodas de dança em 1987, com base no material didático desenvolvido por Anna Barton e publicado pela Fundação Findhorn, e em vivências feitas com Solano. O movimento tomou força no ano de 1995, ano em que Renata C. L. Ramos (de São Paulo), Carlos Solano e Sirlene Barreto (da Bahia) organizaram a vinda de Anna Barton, a focalizadora de Danças Circulares Sagradas em Findhorn, para ensinar as Danças no Brasil.

Hoje, as Danças Circulares Sagradas encontram-se cada vez mais disseminadas pelo nosso país, através do trabalho de focalizadores nas diversas regiões. Seu poder de integração e de resgate do sagrado na vida cotidiana fez com que as Danças passassem a ser utilizadas em diferentes contextos, entre eles o educacional, o corporativo e o da saúde. Desde 2002, realiza-se anualmente, em São Paulo, o Encontro Brasileiro de Danças Circulares… Sagradas, organizado por Renata C. Lima Ramos, Andrea Leoncini e Sonia Yamashita Lima, que reúne pessoas de todo o país, e proporciona uma intensa troca de informações e o contato e aprendizado com focalizadores vindos de diversas partes do mundo.

Referências:

RAMOS, Renata Carvalho Lima. Danças circulares sagradas: uma proposta de educação e cura. São Paulo: Triom, 2002.

WOSIEN, Bernhard. Dança: um caminho para a totalidade. São Paulo: Triom, 2000.