A Influência da Filosofia Dialógica de Martin Buber na Gestalt-terapia

Desenvolvida por Frederick (Fritz) Perls (Berlim, Alemanha, 1893 – Chicago, EUA, 1970) e seus colaboradores, notadamente Laura Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman, a gestalt-terapia é uma abordagem humanista, de matriz fenomenológico-existencial, que sofreu influências de diversos pensamentos e escolas filosóficas. As principais delas são: a Psicologia da Gestalt, baseada nos trabalhos de Wertheimer, Koffka e Kohler; a Teoria de Campo de Kurt Lewin; a Teoria Global de Kurt Goldstein; o Holismo de Smuts; e as filosofias orientais, como o zen-budismo e o taoísmo, além da filosofia dialógica de Martin Buber (GINGER, 1995; KIYAN, 2001; KIYAN, 2006; KIYAN, 2009; RODRIGUES, 2009; RIBEIRO, 1985; WULF, 1996).
A articulação com a filosofia dialógica buberiana ocorreu posteriormente à morte de Perls, porém a influência de Buber já pode ser sentida no decorrer de sua obra (KIYAN, 2009).  O filósofo e teólogo judeu Martin Buber (1878-1965) considera que há duas modalidades de relacionamento com o mundo e, consequentemente, com as outras pessoas. A primeira é o que ele chama de Eu-Isso, na qual existe uma relação de utilidade onde o Isso é objeto de conhecimento e de experiência; é objeto, portanto, da consciência expressa pelo Eu. A outra modalidade é a Eu-Tu que, para ele, é onde ocorre uma verdadeira relação, na qual duas consciências co-participam do mundo e se encontram. Para Von Zuben (2001, p. 34):

O Eu se torna Eu em virtude do Tu. Isto não significa que devo a ele o meu lugar. Eu lhe devo a minha relação a ele. Ele é meu Tu somente na relação, pois, fora dela, ele não existe, assim como o Eu não existe senão na relação.

Sabendo que a gestalt-terapia é uma abordagem fundamentalmente fenomenológica e dialógica, fica clara a influência de Buber na obra gestáltica, já que ela considera que somos seres relacionais, constituídos a partir da relação com o outro e com o mundo.  Um contato Eu-Isso é possível não só entre um ser e um objeto, mas também entre dois seres. Na verdade, essa é a modalidade de relacionamento mais presente no cotidiano, mas é apenas a relação Eu-Tu que oferece possibilidades de realização humana a ambos os envolvidos. A relação autêntica Eu-Tu fundamenta-se em uma postura dialógica, na qual não existe uma exigência de concordância total, mas sim uma atitude de aceitação e compartilhamento. Ainda que com seu fundo existencialista e sua crença na liberdade e na solidão fundamentais do ser humano, a gestalt-terapia admite a possibilidade do contato, num momento de encontro verdadeiro:

O seu território, só você pode percorrer; não há como alguém sentir os sentimentos do outro, mas isso não significa que esse sentimento não possa ser compartilhado, dividido, de modo que um território possa tocar no outro, dois mundos possam realmente se comunicar (RODRIGUES, 2009, p. 145).

Cada indivíduo em relação é uma força que atua no campo vivencial do outro, assim como tem seu campo vivencial alterado por ele. (RODRIGUES, 2009). Desta forma, ocorre um processo de desvelamento recíproco: enquanto um Eu se revela a um Tu, simultaneamente se vê revelado para si próprio. O self gestáltico é, então, um processo, já que se refere ao ser-no-mundo, sempre dinâmico, sempre em relação, sempre agindo sobre o meio e o transformando, enquanto transforma a si mesmo.

(Trecho: BABO, Dagmar Ribeiro; BASSO, Maria Angelica de Melo Rente. Estrelas nascidas do caos: danças circulares como recurso para aquisição de awareness em adolescentes. TFC. São Paulo: Universidade São Marcos, 2011).
Referências
GINGER, Serge; GINGER, Anne. Gestalt, uma terapia do contato. São Paulo: Summus, 1995.
KIYAN, Ana Maria M. (org) Arte como espelho: experimentos em arteterapia gestáltica. São Paulo: Altana, 2006.
______ E a gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Altana, 2001.
______ O gosto do experimento: possibilidades clínicas em Gestalt-terapia. São Paulo: Altana, 2009.
RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 1985.
RODRIGUES, Hugo Elídio. Introdução à gestalt-terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. Petrópolis: Vozes, 2009.
VON ZUBEN, Newton A. Eu e Tu, de uma ontologia da relação a uma antropologia do inter-humano. In: BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001. pp 29-51.
WULF, Rosemary. The historical roots of gestalt therapy theory. Gestalt Dialogue: Newsletter fo the Integrative Gestalt Centre. New Zealand, 1996.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s