Viagem à Escócia – Findhorn Foundation

Nature Sanctuary em The Park, Findhorn Foundation

Nature Sanctuary em The Park, Findhorn Foundation

Faz duas semanas que estou de volta de uma estada de três semanas na Findhorn Foundation, na Escócia. Tudo o que experienciei lá continua muito vivo e ressoando muito forte dentro de mim. Foi uma experiência radicalmente transformadora, repleta de aprendizados e de descobertas, e é um pouco disso tudo que quero compartilhar aqui.

Conhecer a comunidade de Findhorn era um sonho antigo. A mais de dez anos, desde que comecei a praticar Danças Circulares, eu tinha vontade de visitar o lugar onde teve início este movimento tão significativo na minha vida. Mas era um desejo que me parecia também algo, senão impossível, muito distante da minha realidade. Enfim, para tudo há um tempo certo, e a hora chegou. A decisão de, finalmente, realizá-lo veio numa conversa despretensiosa com meu pai, José Rente, que também adora viajar.  Não posso deixar aqui de agradecer imensamente o apoio inestimável que recebi dele,  sem o qual essa viagem não teria sido possível. Comentei com ele que adoraria conhecer a Findhorn Foundation e ele me respondeu: “E porque você não vai?” Eu disse que um dia iria, e ele, prontamente, me falou: “Um dia, não. Para que esperar? Vá agora!”. E então o sonho começou a tomar forma…

O que, a princípio, seria uma estada de uma semana para o Festival of Sacred Dance, Music and Song, logo se tornou um plano mais ambicioso. Já que eu estava indo, por que não aproveitar e participar da Semana de Experiência em português, que aconteceria na semana anterior? No site da Fundação descobri que, na semana anterior à de Experiência, Dominic Barter, junto de quem venho desde o ano passado investigando possibilidades de comunicação e vida em comunidade fundadas na Não-Violência, estaria lá juntamente com Kit Miller para uma vivência intensiva em Não-Violência. Timing mais-que-perfeito, e eu decidi que minha visita duraria então três semanas.

A Findhorn Foundation é uma comunidade e ecovila fundada em 1962 por Eillen e Peter Caddy e Dorothy Maclean. Localiza-se no nordeste da Escócia, no litoral do Mar do Norte, nas proximidades da vila de Findhorn. Com base em uma proposta espiritual ecumênica, na vida comunitária e na não-violência, tem sido uma inspiração para várias comunidades ao redor do mundo. A Fundação abriga vários eventos e cursos nas áreas de desenvolvimento pessoal e espiritual, sustentabilidade, ecologia, artes, música e danças sagradas, além de programas residenciais que promovem experiências de imersão na vida e trabalho em comunidade.

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Semana 1 – Nonviolence Intensive

Pois bem, foi realmente uma semana intensa! Gente de vários lugares do mundo, com interesses, vivências e atuações profissionais e pessoais diversas, reunidas para conviver de uma forma que a maioria de nós não está acostumada, baseada na autenticidade, em partilhas profundas de sentimentos e necessidades e na força criativa que permite encontrar soluções consensuais para os conflitos que inevitavelmente surgem quando várias pessoas decidem viver juntas.

Este programa, que acontece anualmente na Fundação, é focalizado por Kit Miller, diretora do M.K. Gandhi Institute for Nonviolence, localizado em Rochester-NY, e Dominic Barter, pesquisador em Comunicação Não-Violenta e práticas restaurativas e precursor dos Círculos Restaurativos no Brasil. Ambos investigam a vários anos possibilidades de convivência e de comunicação baseadas na não-violência e na cocriação de uma realidade que viabilize uma existência mais humana, justa e que sustente e sirva à vida em todas as suas formas.

Tudo fica ainda mais instigante quando tomamos conhecimento da proposta de corresponsabilização financeira que sustenta o programa. A Fundação e os focalizadores oferecem-no como um presente, ou seja, nenhum valor é cobrado pela participação. Mas, por outro lado, ela também não é gratuita. Afinal, há os custos para nos hospedar e alimentar durante toda uma semana, para que os focalizadores se desloquem até lá e para apoiarmos seus trabalhos, e estes valores devem ser cobertos de forma que o evento se torne sustentável e possa continuar se realizando. Como isso acontece, então? Em algum momento durante a semana os custos são informados e cada um de nós decide de que forma quer e pode contribuir, de modo que todos nos tornamos responsáveis por viabilizar o programa. Este modo criativo de lidar com as questões financeiras é transformador e muito empoderador, além de permitir a participação de uma imensa diversidade de pessoas, já que não há uma seleção prévia que separa aqueles que poderiam pagar um determinado valor de outros que teriam muito a contribuir caso fizessem parte do grupo, mas que não poderiam arcar com os custos.

Participamos de várias atividades juntamente com os residentes na comunidade, como os Cantos de Taizé, que acontecem todas as manhãs, e as meditações da tarde, o que nos permitiu vivenciarmos a proposta espiritual na qual a Findhorn Foundation se sustenta. Também trabalhamos durante uma tarde nas plantações do Cullerne Garden, onde são produzidos os vegetais que abastecem as cozinhas da Fundação, com base nos princípios da permacultura. A relação entre essa técnica, que se fundamenta no reconhecimento e no respeito à sabedoria e à capacidade de autorregulação da Natureza, e o trabalho com comunidades motivou Kit a dizer uma frase que ficou como dica preciosa para mim: observar atentamente, fazer a menor intervenção possível e aguardar para ver o que acontece. Foi muito rico testemunhar a forma pela qual ela e Dominic puseram este princípio em prática desde os primeiros momentos em que nos reunimos, aguardando que o grupo se configurasse lentamente, praticamente sem interferência, até que ele emergisse como uma construção coletiva muito poderosa feita a partir da soma dos potenciais individuais, o que me proporcionou reflexões extremamente ricas sobre como comunidades ganham vida e se sustentam nas intenções de cada um de seus componentes e de todos eles reunidos.

Durante a semana tratamos de vários temas que surgiram através das demandas do próprio grupo, como gênero e desigualdade, a importância do apoio e como nos organizamos para encontrá-lo, alternativas ao modo como nos relacionamos com dinheiro e consumo, elaboração e gestão de projetos comunitários, entre outros. Tivemos também a oportunidade de vivenciar um Círculo Restaurativo que foi chamado para cuidar de um conflito que emergiu entre os participantes, o que me proporcionou novos conhecimentos e a possibilidade de testemunhar e participar da aplicação real daquilo que venho estudando sobre os Círculos.

Outra vivência poderosa e profunda foi a da Truth Mandala (Mandala da Verdade) que Kit e Satya conduziram, inspiradas no trabalho de Joanna Macy. Essa experiência me fez ver com muita clareza a importância de enlutarmos em comunidade. O enlutamento em companhia de pessoas significativas em nossa vida ficou relegado a situações extremas, como a morte de alguém. Ainda assim, na maioria das vezes, esvaziado de significado e burocratizado demais, o que o impede de cumprir a sua função principal, que é de lamentar a perda, mas também celebrar a vida. Mas há também motivos cotidianos para nos entristecermos e lamentarmos. Além das muitas dores do dia-a-dia, as nossas e as alheias, cada escolha que fazemos implica em uma renúncia, e isso pode ser motivo de luto compartilhado. Cada celebração traz em si um enlutamento também, seja por tudo aquilo de que tivemos que abrir mão para poder conquistar algo ou viver de acordo com o que acreditamos, seja porque nem sempre conseguimos celebrar quando, como ou com quem gostaríamos. Mas, se pensarmos bem, todo luto também carrega uma celebração, por mais dissonante que isso possa parecer. Porque toda perda abriga uma possibilidade de transformação, de crescimento, de fortalecimento, de mudança. E poder passar por esses processos em companhia de uma comunidade é muito forte. Ganhar consciência disso me trouxe possibilidades de ser que me enriquecem cada vez mais. 

Kit e Dominic são fontes de inspiração para mim, e sempre fico admirada e muito grata por todo amor que eles manifestam em suas palavras e ações. Além de dar prosseguimento à minha investigação sobre a Comunicação Não-Violenta e os Círculos Restaurativos e de adquirir conhecimentos que passaram a orientar minha atuação no mundo, durante esta semana eu fui capaz de entrar em contato com questões pessoais muito dolorosas e de trabalhar na sua cura. Também adquiri um senso crescente de comunidade como sendo algo que conecta todos os seres, além da consciência de que tenho que cuidar bem de mim, buscando apoio sempre, para que eu possa ser capaz de servir às minhas comunidades. Ainda me sinto profundamente comovida por todas as experiências transformadoras que vivi durante o Nonviolence Intensive. Uma das minhas frases da literatura preferidas é do escritor João Guimarães Rosa no seu livro Grande Sertão: Veredas, e diz: “Viver é negócio muito perigoso”. Dominic costuma dizer que o que define uma comunidade é o risco compartilhado. Se é assim, arrisco afirmar que, em última instância, todos somos potencialmente comunidade. E pensar desta forma fez com que o meu olhar sobre comunidades se ampliasse radicalmente, e eu passei a enxergar muito claramente a minha interdependência em relação a todas as formas de vida do planeta e a nos reconhecer e celebrar como participantes da mesma bela aventura.

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