Meu olho é um girassol: fotografia-presença

Auto-retrato

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos

Nos dias 25 de outubro, em São Paulo, e 23 de novembro, no Rio de Janeiro, estarei ministrando a oficina Meu Olho é um Girassol: fotografia-presença. Com base na fotografia contemplativa, essa oficina visa utilizar a fotografia como recurso  para propiciar um estado meditativo e de presença plena, que nos devolve a capacidade de nos maravilharmos com o mundo, de nos aproximarmos de nossa humanidade e nos conectarmos com o todo que nos cerca.

Não é necessário ter experiência em fotografia ou equipamentos sofisticados: a ênfase é no processo, e não na técnica. Traga seu celular com câmera ou aquela câmera fotográfica simplesinha mesmo – e olhos abertos para ver.

 A Fotografia Contemplativa é uma prática meditativa que teve origem no budismo Shambhala preconizado por Chogÿam Trungpa. É chamada também de Miksang, uma palavra tibetana que significa “olho bom”. Como prática de meditação, descreve um processo de abertura da percepção que tem por objetivo trazer a presença atenta e de qualidade de quem a pratica. De acordo com texto publicado no site do Miksang Institute for Contemplative Photography®,

Quando sincronizamos olho e mente, abandonamos todos os conceitos e predisposições e nos tornamos completamente presentes no momento. O mundo se torna um mostruário mágico de vívida percepção

 Ao contrário da fotografia tradicional, onde a técnica e os recursos oferecidos pelo equipamento fotográfico têm papel preponderante, na Fotografia Contemplativa o que interessa é o olhar atento e claro de quem fotografa. Pode-se, portanto, fazer uso de uma câmera fotográfica muito simples, ou mesmo de um aparelho celular, pois o que importa não é a qualidade técnica da fotografia, mas sim a qualidade da presença do fotógrafo. Karr e Wood (2011, p.2-3) apontam que

Tendo crescido em uma determinada cultura, nós naturalmente formamos conceitos sobre quais assuntos são atraentes, quais são artísticos, quais valem a pena [serem fotografados]. Esses conceitos são como filtros ou gabaritos que se sobrepõe à nossa experiência […] Por desviarem o fotógrafo do mundo da forma visual, esses conceitos tornam-se obstáculos para uma visão clara. Distraída pelos conceitos, a visão se torna vaga e distorcida. Com a percepção obnubilada pelas imagens mentais é difícil ao fotógrafo convencional ver o todo que está fotografando, e fácil para ele não prestar atenção naquilo que não se encaixa no gabarito. 

 O objetivo da Fotografia Contemplativa, ao contrário, é de desenvolver a habilidade de se fotografar aquilo que se vê. Para os mesmos autores, isso só é possível quando estamos presentes no momento e nossa visão se torna clara, não obscurecida por expectativas ou pressupostos. Podemos perceber aqui ligações bastante claras com a Gestalt-terapia, em especial no que se refere à postura fenomenológica, principalmente a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, que coloca o homem como alguém que não só habita o mundo, mas, mais do que isso, está profunda e intrincadamente implicado nele. Também permite inter-relações com questões como a alternância figura-fundo e a emergência de significados, já que o estado ideal para se praticar a Fotografia Contemplativa é, como o próprio termo descreve, um estado contemplativo do qual emergirão subitamente os assuntos a serem fotografados e para os quais a atenção se volta antes do disparo da câmera. Deste estado emerge também a awareness. A Gestalt-terapia enfatiza a importância da conscientização de si e do momento presente, conscientização essa que não é apenas mental, mas organísmica, total (PERLS, 2011), “com qualidade acentuada de atenção e sentido” (KIYAN, 2009, p.52). Essa forma plena de experiência é chamada de awareness. Termo sem tradução literal para o português, relaciona-se à consciência presentificada, é presença plena e ativa (PERLS, 1997). Para Yontef (1998, p.215):

Awareness é uma forma de experienciar. É o processo de estar em contato vigilante com o evento mais importante do campo indivíduo/ambiente, com total suporte sensoriomotor, emocional, cognitivo e energético. Um continuum sem interrupção de awareness leva a um Ah!, a uma percepção imediata da unidade óbvia de elementos díspares no campo. A awareness é sempre acompanhada de formação de gestalt. Totalidades significativas novas são criadas por contato de aware. A awareness é, em si, a integração de um problema.

Podemos então considerar a Fotografia Contemplativa como um exercício poderoso de consciência ativa e presentificada que nos possibilita estarmos no mundo de forma mais inteira, em pleno contato com aquilo que se apresenta a cada momento, recuperando em nós o “pasmo essencial” de que fala Caeiro no poema que abre este texto. E é ele que nos permite lançarmos um olhar sempre fresco e inocente sobre o mundo e maravilharmo-nos com ele a cada instante.

REFERÊNCIAS

KARR, Andy; WOOD, Michael. The practice of contemplative photography: seeing the world with fresh eyes. Boston: Shambala, 2011.

KIYAN, Ana Maria M. O gosto do experimento: possibilidades clínicas em Gestalt-terapia. São Paulo: Altana, 2009.

PERLS, Frederick S; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997

YONTEF, Gary M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.

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Uma resposta para “Meu olho é um girassol: fotografia-presença

  1. Angélica querida: Que honra e orgulho ver a manifestação plena de sua configuração, a partir das partes que vc vem cuidadosamente arrebanhando durante sua vida…Raciocínio claro como o sol, afeto puro como o do Girassol… Como não recomendar??? Trabalho lindo e consistente… adoro muitooo!!!!!

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